Mas o que isso tem a ver com a Educação Inclusiva?
Me permita uma provocação:
Quando se olha para uma criança e se diz que ela “tem um problema”, que ela “é deficiente”, que ela “não vai conseguir” — se está descrevendo uma realidade objetiva ou participando ativamente da construção dessa realidade?
Essa não é uma pergunta retórica. Vejo como sendo o núcleo de um debate — na perspectiva sócio-histórica — necessário e urgente sobre a complexidade da Educação Inclusiva. Debate que nos interpela diretamente como educadores, gestores, familiares e sociedade.
A deficiência não nasce com a pessoa. Ela é produzida.
Essa afirmação costuma gerar desconforto. Afinal, parece intuitivo pensar que a deficiência é algo orgânico, biológico, inerente ao corpo. E, em parte, é mesmo — o que chamamos de deficiência primária: a condição biológica ou neurológica em si.
Mas existe uma deficiência secundária, e é ela que, na maioria das vezes, define o que uma pessoa consegue ou não consegue fazer na vida. A deficiência secundária não está no organismo da pessoa. Ela está nas relações sociais. Nas expectativas dos outros. Nos rótulos. Na ausência de mediação qualificada. No preconceito institucionalizado.
Quando um grupo social interpreta e trata determinadas diferenças como desvantagem, ele não está apenas descrevendo uma realidade — ele está criando essa realidade. A deficiência emerge, se consolida e se aprofunda no funcionamento do próprio grupo social, não no corpo isolado do sujeito.
Isso tem implicações enormes. Tem implicações pedagógicas, políticas, éticas.
O “outro” que nos constitui
Desde o primeiro momento de vida, a criança é inserida no mundo social através do olhar e da fala do outro. É o outro que a nomeia, que lhe atribui sentido, que a faz sujeito. É o outro que diz: “essa criança vai longe” ou “essa criança tem limitações demais”.
Esse processo não é neutro. Ele carrega a história, os valores, os preconceitos e as contradições da sociedade em que estamos inseridos. Uma sociedade profundamente desigual, que tende a naturalizar a exclusão daqueles que fogem ao padrão de produtividade, normalidade e eficiência que ela mesma definiu.
E aqui entra uma questão que poucos se perguntam: esses “outros” que definem e rotulam também foram definidos e rotulados. O professor que inconscientemente limita as expectativas sobre um aluno também foi, em algum momento, ensinado a enxergar o mundo dessa forma. Ninguém está fora da cadeia histórica de constituição dos sujeitos.
Isso não é para absolver ninguém. É para compreender que a transformação também precisa ser histórica, coletiva e consciente.
Identidade, rótulo e profecia que se autocumpre
Quando atribuímos a alguém o papel social de “deficiente”, criamos expectativas que moldam nosso comportamento com essa pessoa — e, consequentemente, moldamos o comportamento dela. A psicologia social chama isso de profecia autorrealizadora. A perspectiva sócio-histórica vai além: chama de constituição do sujeito nas relações sociais.
A identidade das pessoas rotuladas como deficientes é construída em pelo menos três camadas:
1. As representações simbólicas que a sociedade em geral fabrica sobre a deficiência;
2. Os valores atribuídos pelas instituições especializadas — escolas, clínicas, centros de reabilitação — que têm autoridade social para dizer quem é capaz e quem não é;
3. A forma como a própria pessoa internaliza, negocia ou resiste a essas identificações.
Qual dessas camadas a educação pode tocar? Todas. E é por isso que a educação é central nessa discussão.
O papel da educação: muito além da informação
Quando falo de educação aqui, não me refiro apenas à transmissão de conteúdos curriculares. Refiro-me a uma educação que instrumentaliza o sujeito a cuidar de si e a cuidar do outro. Uma educação que amplia a leitura de mundo. Que produz consciência crítica. Que forma pessoas capazes de resistir ao preconceito — e de enfrentá-lo.
A escola pode ser um espaço de legitimação da exclusão ou de resistência a ela. Não existe neutralidade aqui.
Quando um professor entra em sala sem refletir sobre suas próprias concepções acerca da deficiência, da diferença, da normalidade — ele está reproduzindo, sem perceber, uma lógica excludente que tem raízes históricas profundas. Quando, ao contrário, ele compreende que o papel da mediação qualificada é central no processo de compensação da deficiência secundária, ele age de forma radicalmente diferente.
A mediação importa. A expectativa importa. O afeto importa. A qualidade da intervenção pedagógica importa — e muda trajetórias de vida.
Prevenção é também educação
Quando pensamos em prevenção de deficiências, o senso comum nos leva a pensar em saúde pública, vacinação, nutrição. Tudo isso é importante. Mas prevenção é também — e fundamentalmente — educação para a não-produção da deficiência secundária.
Prevenir, nessa lógica, significa construir relações sociais que não transformem diferenças em desvantagens. Significa formar educadores que compreendam a dimensão sócio-histórica da deficiência. Significa criar ambientes escolares onde o preconceito seja nomeado, problematizado e combatido.
Isso não é tarefa simples. Não se faz em uma semana de formação continuada. Não se resolve com um projeto pontual. É um processo coletivo, lento, que exige reflexão permanente sobre a própria prática.
E é aqui que voltamos ao começo
Não existe prática pedagógica consistente, transformadora, inclusiva e significativa sem teoria pedagógica séria e engajada com a emancipação humana.
Um professor que age sem teoria está, na melhor das hipóteses, improvisando. Na pior, está reproduzindo as estruturas que afirma querer combater. A teoria não é o oposto da prática — é o que torna a prática consciente de si mesma.
Compreender a deficiência como construção social não é negar o sofrimento real de pessoas e famílias. É, ao contrário, levar esse sofrimento a sério o suficiente para investigar suas causas mais profundas — e agir sobre elas.
A pergunta que fica não é fácil, mas é necessária:
Em que medida a nossa prática pedagógica está contribuindo para a não-legitimação da exclusão — ou, pelo contrário, para que essa exclusão continue sendo produzida e naturalizada?
Essa é a pergunta que uma educação comprometida com a transformação não pode parar de fazer.
> O que você pensa sobre isso? Como essa discussão aparece na sua prática cotidiana?
A presente reflexão parte de uma perspectiva sócio-histórica da Educação Inclusiva, tendo como base estudos realizados e produções textuais desenvolvidas ao longo da minha trajetória.Mário Sérgio Godoy – Designer Educacional & Pedagogo
Mário Sérgio Godoy – 27 de abril de 2026